Usinas fixaram preço para mais de 20 milhões de toneladas de açúcar da safra 2022/23

Migração de açúcar para a produção de hidratado, ainda que em parcela pequena, não pode ser descartada

  • 25/4/2022 16:32
  • Ester Agroindustrial
  • Ester Agroindustrial

A safra de cana-de-açúcar 2022/23 do Centro-Sul está equacionada. De acordo com a consultoria Archer Consulting, as usinas fixaram um alto volume de açúcar, ultrapassando as 20 milhões de toneladas, que devem se converter em exportação física do produto, pois existem contratos lastreando esses hedges.

Conforme a consultoria, a migração de açúcar para a produção de hidratado, ainda que em parcela pequena, não pode ser descartada. O washout é uma condição prevista na maioria dos contratos internacionais de commodities. "Nela, o vendedor negocia a recompra do produto que não pode ou não quer entregar. O início da safra deve diminuir essa possibilidade. Mas vale observar de perto", explica o diretor da consultoria, Arnaldo Corrêa.

Segundo ele, o preço médio que as usinas obtiveram na fixação dos açúcares de exportação da safra 2021/22, recém-encerrada, foi de R$ 1,640 por tonelada, que atualizado para valores de hoje alcança R$ 1,872 por tonelada.

Ainda de acordo com Corrêa, quando as fixações foram feitas, as usinas não podiam prognosticar que o custo de produção fosse escalar na proporção que se viu e parte da margem que estimavam receber foi consumida pelo aumento dos insumos. Essa constatação por parte das usinas ocasionou uma desaceleração nas fixações de vendas de açúcar para a safra que está começando ainda assim, a temporada começa com um percentual fixado de cerca de 80%.

O valor é inferior aos 86% vistos no mesmo período da safra 2021/22. No entanto, entre 2016/17 e 2020/21, o percentual médio de açúcares fixados antes do início da moagem era de 52%.

De acordo com Corrêa, um dos motivos que provocou a aceleração nas fixações de preço do açúcar por parte das usinas no passado foi o fato de que a commodity era o único produto que elas podiam fazer o hedge até então, pois não sofria interferências do governo.

"Hoje, as usinas sabem que podem mudar o mix, assumem que a Petrobras tem menor chance de sofrer intervenções governamentais e, portanto, elas têm mais condições de administrarem sua produção direcionando para o produto que propicia mais retorno financeiro", afirmou.

Quando estavam sem alternativas de hedge para um percentual significativo de sua produção, algumas usinas acabaram usando produtos derivativos que, ao invés de mitigarem o risco, acabaram o potencializando. "São inúmeros os casos de usinas e empresas do setor que se deram mal com a utilização de opções exóticas na década passada. Acumuladores, opções que dobravam, opções que desapareciam, entre outras maravilhas da engenharia financeira. Algumas estão pagando a conta até hoje", explica Corrêa.

Perspectivas para 2023/24 

As usinas dizem ser ainda é muito cedo para falar sobre a próxima safra. Segundo a Archer Consulting, as incertezas se avolumam dada a fragmentação do processo decisório. "Foi-se o tempo em que a usina olhava o açúcar em Nova York e o câmbio. Tente listar hoje os ativos que compõem toda a estrutura de custo e/ou fazem parte da formação de preço do açúcar e etanol. Não é para amador. Quem tratar o mercado de forma amadorística vai ser engolido por quem faz a lição de casa", disse Corrêa, em análise semanal.

Com tantas incertezas e a preocupação acerca do custo de produção desta safra, Corrêa diz ser natural que 2023/24 fique em espera até que os fragmentos formem uma figura mais nítida. "Como temos dito em comentários anteriores, 2023/24 vai ser uma outra bola em jogo. Vemos mais fatores à frente que podem elevar os preços em centavos de dólar por libra-peso do que o contrário. Grande parte das usinas com quem falamos está preocupada com a perda de área para outras culturas mais vantajosas", afirma Corrêa.

Um dos grupos consultados pela Archer teve perda anual de área de 3% nos últimos cinco anos. Os dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) apontaram para uma queda de 1,4% na área de cana do Centro-Sul. "Não é de se admirar que, com a soja valendo R$ 180 e a cana R$ 130, os fornecedores migrem para a oleaginosa", disse Corrêa. 

Fonte: NovaCana


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